8 de mai. de 2012

Luxo

                   
 No nicho da civilização over-hedonista que se alastra de forma curiosa mundo afora é difícil entender o luxo. Ou ao menos o novo sentido dado a ele.
Como peixe fora d’água assumida caminho na contramão do fluxo de excessos e da supervalorização do que pouco valor possui.

4 de mai. de 2012

Sinfonia

O final de tarde era perfeito. A praia, o palco de uma sinfonia de cores e sons.
O tom de ouro velho do sol se refletia na baixa-mar fazendo os simplórios grãos de areia brilharem. Algo mágico. Partículas de luz são pequenas gotas de alegria em nosso íntimo. Cada gota na sua pequenez é capaz de modificar todo um estado de espírito...
 Em contraponto, as ondas espumavam sonoras numa cadência melancólica mantendo o ritmo do ocaso piano, piano...
Nenhuma intervenção humana ousaria quebrar a harmonia daquele momento.
Eu sabia que a praia estaria deserta. Escolhi o momento ideal para levar avante minha decisão.

1 de mai. de 2012

Empresa verde?


O salão de convenções do hotel luxuoso estava lotado de executivos para a Conferência de Responsabilidade Socioambiental Corporativa. Tema da moda, local próprio para um marketing sustentável e conversas que podem gerar futuros negócios, o evento era um sucesso garantido.

25 de abr. de 2012

A mala



Foi Onório quem levantou a polêmica:
– Não era para o prefeito ter voltado hoje?
– Acho que sim – disse Edimir, cauteloso.
– O Siqueira esteve mais cedo aqui no bar e me parece que há um zunzunzum lá na Câmara. Ele não disse com todas as letras, mas essa demora do prefeito é sinal de problema – explicou Onório.
O Siqueira é da oposição. Não se pode levar a ferro e fogo tudo o que diz.
–  Ou o que não diz...
Por outro lado, como jornalista, é meu dever apurar qualquer fato que possa repercutir na nossa cidade.
É para isso que a Gazeta da Abadia conta com você há anos! – disse Onório.
Vou tomar isso como um elogio. E vou dar uma passadinha lá na Câmara...

22 de abr. de 2012

Blind Justice


Meio-dia. O pessoal do escritório fazia fila na porta do elevador. Iam descendo em levas,  ávidos por pegar uma mesa no restaurante novo da quadra: a melhor comida e o menor preço. Quando o último grupo desceu, Arnaldo escorregou para a mesa do Vander e foi direto ao ponto:
Agora você vai me contar o que aconteceu. Que história é essa de você quase morrer ontem à noite?

19 de abr. de 2012

Deu nos búzios...

Quando o primeiro raio de sol invadiu a penumbra do quarto, Rafael entregou os pontos.
Chega. Isso não pode continuar assim...
Passara mais uma noite em claro e continuava sem a menor ideia de como iria resolver seus problemas. Decidido, revirou os papeis e trastes amontoados na escrivaninha até encontrar o bloquinho onde anotara aquele número de telefone.
Esperou o relógio badalar oito vezes e ligou. Seu horário foi marcado.
Às onze em ponto ele chegou naquele terreno da periferia. Uma casinha no fundo mostrava uma placa de madeira envelhecida: Mãe Cidinha. Atende com hora marcada.

14 de abr. de 2012

Solidão



O professor Hilário entrou na sua classe do primeiro ano de filosofia e escreveu no quadro com uma caneta azul a palavra solidão.
Virou-se para os alunos, arregaçou as mangas e disse:
– Hoje vamos falar sobre o sentimento que mais de perto nos acompanha. Que está alojado nas camadas mais profundas da nossa alma. Que nos persegue por todas as fases da vida. A solidão.

12 de abr. de 2012

De coração aberto

Na estrada que me levava à bucólica vila do interior da Toscana, o trajeto sinuoso pelos Apeninos parecia me transportar a cada quilometro a um tempo mais distante.
As vinhas em flor transbordavam de suas fileiras e se punham a espreitar os que passavam, se esparramando pelos acostamentos e pelas encostas próximas ao asfalto destoante, como uma paisagem dos anos trinta. As construções mostravam orgulhosas o estilo de séculos idos com aquela rusticidade própria e requintada. Até a luz do sol era cúmplice desse passado tão presente. Era de um dourado antigo, como uma pátina cuidadosamente aplicada em torno daquela paisagem.
Quando cheguei àquela cidadezinha fui direto à velha estação de trens. Meu objetivo era muito claro e nem a fome que começava a dar seus sinais ia me desviar dele. Como na infância, aquele tempo em que gostamos de bancar espiões mirins, eu ia tentar desvendar um mistério que datava de três gerações.

5 de abr. de 2012

As luzes da floresta

(No mês da literatura infanto-juvenil, uma história para crianças...)

– Conta mais uma história! – pediu a pequena Bruna.
Vovô Ciro cortou o queijo e sorriu ao ver a animação da neta.
Bruna se deitou na toalha xadrez que forrava a grama. Sempre montavam piqueniques às margens da lagoa. Uma fogueira afastava o friozinho da noite e eles podiam sentir no vento o aroma de grama molhada. O lugar era tão bonito que Bruna queria ficar ali para sempre!
A fazenda do vovô Ciro fica ao lado do Rio Bravo, em meio a natureza. Lá Bruna pode explorar uma floresta linda, que todos chamam de Grande Bosque! Ela também brinca na casa da árvore, monta no pônei malhado e mergulha na cachoeira. Às tardes, ela come as guloseimas da vovó Mari: bolo de cenouras cultivadas na horta, geléia de morango do pomar e doces feitos com ovos fresquinhos!
E há uma tradição: na última noite das férias, vovô conta histórias da fazenda, para Bruna ter lembranças bem vivas quando chegar à cidade grande! Naquela noite, Ciro se deu conta que sua neta estava crescendo rápido. Sentiu que era hora de lhe contar uma história especial. E começou assim...

31 de mar. de 2012

Uma lógica e tanto...

Era fim de mês e Alzinéia pediu à patroa um adiantamento. Precisava comprar um fogão novo e viu pela janela do ônibus uma promoção no centro da cidade. O preço era bom, mas só para pagamento à vista.
A patroa fez um cheque e ao sair do trabalho Alzinéia correu para a loja. Olhou o modelo do fogão e se dispôs a comprar. Fez o cadastro, deu o endereço de entrega e foi efetuar o pagamento.
A mocinha do caixa, ao receber o cheque da patroa, lhe disse:
– A senhora não pode pagar com este cheque. Só aceitamos cartão, dinheiro ou cheque próprio.

30 de mar. de 2012

Diabretes


–  Ei! É minha vez! – gritou Germano.
–  Espera aí, já vou descer! – retrucou César.
Todo fim de tarde, César, Germano, Marcos e eu subíamos na árvore do terreno que dava para o quintal da minha avó para espiar. Queríamos descobrir o segredo do seu Evaristo.

27 de mar. de 2012

O anúncio


Lavínia tinha recém feito nove anos. Era ingênua, mas esperta. Disfarçou a voz com um pano e ligou para o telefone que viu no anúncio. Um rapaz chamado André atendeu e lhe passou um endereço.
No final da tarde ela estava no local marcado. 

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